Estudos científicos sobre a alimentação natural em animais de estimação

Muitos tutores não se sentem seguros para fazer a mudança para a alimentação natural por falta de estudos sobre a sua influência na saúde de cães e gatos.

No entanto, existe cada vez mais evidência científica sobre isto, confirmando os benefícios da dieta natural (BARF e cozinhada) em problemas como dermatite atópica, processos digestivos e doenças relacionadas com a imunidade.

Estes estudos centram-se principalmente na espécie canina e, sobretudo, relacionados com a alimentação natural fresca rica em gordura e sem processar vs alimentação seca rica em hidratos de carbono e processada (rações).

Neste blog vamos falar de várias doenças muito prevalentes na espécie canina e a influência da dieta no desenvolvimento destas doenças em animais adultos.

Vamos centrar-nos num grupo de investigadores da Universidade de Helsínquia, cujos estudos estão muito relacionados com a alimentação natural (Dog Risk).


DERMATITE ATÓPICA CANINA (DAC)

Segundo os resultados de um estudo desta universidade, a DAC tem uma associação significativa com a composição da microbiota intestinal. De acordo com a dieta seguida pelo animal, a presença de umas ou outras bactérias comporão essa flora do intestino.

A alimentação BARF baixa em hidratos de carbono tem maior presença de Fusobacterium spp, Prevotella spp, Lachnospiraceae spp, bacteroides e menor presença de Faecalibacterium spp vs rações secas.

Mas não é apenas a alimentação que tem um papel importante no desenvolvimento da DAC. Existem raças predispostas a sofrer desta condição, como é o caso do Labrador retriever. O uso recorrente de antibióticos associa-se à abundância de alguns géneros de bactérias como E. shigella, provocando maior predisposição à doença.

Outro estudo de 2236 cães demonstrou que era menos prevalente o desenvolvimento de DAC em cães adultos se, no período pré e pós-natal, o cão fosse alimentado com alimento fresco rico em gordura e não processado vs alimento processado e seco rico em hidratos de carbono (ração).

Um conjunto de mais fatores interfere no desenvolvimento da doença, como as desparasitações que a mãe recebeu durante a gravidez, se os cachorros apanharam sol, no mínimo, 1h nos primeiros 2 meses e se estiveram em contacto com relva e terra nos primeiros 2-6 meses de vida, entre outros.

Aqueles animais com antecedentes maternos de DAC, de raças predispostas e com uma pelagem de, no mínimo, 50% de cor branca, têm predisposição para desenvolver sintomas relacionados com a DAC.

O estilo de vida do tutor e, por conseguinte, do animal, também influencia o desenvolvimento de alergias. Segundo outro estudo, os cães de meios rurais e estilos de vida menos urbanos têm uma menor incidência de processos alérgicos.

Por último, falaremos de outro estudo de 4022 cães com menos de 1 ano. Demonstrou-se que dar-lhes um mínimo de 20% de alimentação BARF ou menos de 80% de ração seca diminui o aparecimento de sintomas relacionados com a atopia. Além disso, o uso de ingredientes como a tripa verde, vísceras e carne crua, assim como óleo de peixe, também diminui esses sintomas cutâneos.

O uso exagerado de frutas, suplementar com óleos misturados, ingerir alimento seco (ração) ou beber de poças pode predispor ao aparecimento de problemas de pele.


DOENÇAS DIGESTIVAS

Um estudo de 7015 cães em diferentes etapas de crescimento (período pré-natal, neonatal, idade precoce e período tardio pós-natal) e com distintos tipos de alimentação (ultraprocessado rico em hidratos de carbono e alimentos crus ricos em gordura e baixos em hidratos) ajudou a comprovar se a dieta influencia o aparecimento de IBD (Doença inflamatória intestinal).

O estudo conclui que nos cães alimentados com dietas não processadas ricas em gordura e baixas em hidratos durante o período pós-natal precoce e tardio, diminui a prevalência de desenvolver IBD na idade adulta, face a um aumento naqueles alimentados com dietas secas ultraprocessadas ricas em hidratos (ração).

Comprovou-se que existem outros fatores que podem ter relevância, como o peso dos cachorros com menos de 6 meses. Aqueles que estavam muito magros poderiam desenvolver mais facilmente esta condição, sendo fundamental atingir um peso ideal para o cachorro como forma de prevenção. A genética da mãe é um dos fatores mais influentes e, além disso, comprovou-se que os cães machos tinham o dobro das possibilidades de desenvolver uma IBD.

Outro estudo de 16607 cães classificados em 3 etapas de desenvolvimento (cachorros, adolescentes e adultos) com uma enteropatia crónica foram tratados com dieta, antibiótico e corticoides. Comprovou-se que animais alimentados com BARF baixo em hidratos de carbono e alto em gorduras, alimentação mista (ração + BARF/cozinhada) e os que comiam cozinhada caseira tinham um efeito protetor a nível digestivo vs aqueles alimentados com alimentação ultraprocessada rica em hidratos de carbono na idade adulta.

A presença de ossos carnudos, bagas e alimentos frescos foi especialmente importante para evitar o desenvolvimento de sintomas digestivos a longo prazo.

É importante falarmos também de um tema relacionado com problemas digestivos e que tanto preocupa os tutores: as possíveis infeções que o cão ou o tutor pode contrair por comer alimentação crua.

INFEÇÕES POR ALIMENTAÇÃO

Num estudo de 16475 famílias, apenas 0,2% teve transmissão de agentes patogénicos, sendo que 5% deles eram pessoas imunocomprometidas. Apenas 3 dessas pessoas puderam confirmar que o agente patogénico encontrado (E.coli) também se encontrava na comida BARF dos seus cães.

No entanto, esta infeção foi associada ao facto de os cães comerem relva e beberem água de poças, e não tanto à comida dos animais (baixa carga biológica); outro fator era o comportamento de necrófago do cão (comer animais mortos e em decomposição).

DOENÇAS RELACIONADAS COM O SISTEMA IMUNITÁRIO

Para terminar, mencionaremos um estudo que conclui que a utilização de alimentos frescos ricos em gorduras e baixos em hidratos melhora a imunidade inata do animal e diminui o stress oxidativo das células, desempenhando a alimentação um papel muito importante na prevenção de hipersensibilidades relacionadas com um desajuste do sistema imunitário e de outras perturbações imunitárias desenvolvidas em idade precoce.

Como pode ver, desenvolvem-se cada vez mais estudos onde se comparam vários tipos de alimentação. O financiamento de certas universidades e estudos independentes é fundamental para favorecer a publicação de estudos, uma vez que levar a cabo estudos com amostras de animais suficientes requer um investimento importante, e é por isso que é tão difícil que venham a público.

Enquanto as marcas de ração (multinacionais) investem em estudos parciais sobre alimentação processada, os estudos independentes sem enviesamentos são menos abundantes, mas pouco a pouco iremos encontrando mais bibliografia graças ao interesse crescente dos tutores de cães e gatos.

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