Como ajuda a alimentação BARF face às intolerâncias alimentares

As intolerâncias alimentares são reações do organismo do animal, que afetam a nível metabólico, mas onde o sistema imunitário não está comprometido. Esta é uma grande diferença em relação às alergias, já que nas intolerâncias o sistema imunitário pode ou não estar envolvido. As intolerâncias alimentares são muito frequentes nos nossos cães e gatos, podem ocorrer face a um ou vários alimentos e existem uma infinidade de fatores que lhes dão origem.

Outra diferença que podemos observar entre as alergias e as intolerâncias é que as primeiras começam a manifestar-se rapidamente (a partir das 2h do contacto), enquanto as intolerâncias podem demorar até 3 dias a aparecer, desde o momento em que o animal é exposto ao alimento que causa a intolerância.

Além disso, nas intolerâncias não teremos a possibilidade de chegar a ter um choque anafilático. As imunoglobulinas envolvidas neste processo são a IgA e a IgM, e encontram-se nas fezes ou na saliva do animal.

 

Sintomas da intolerância alimentar

Muitos dos sintomas que uma intolerância produz no seu cão ou gato são semelhantes aos que produz uma alergia, por isso, por vezes, é tão difícil diferenciá-las.

  • Gastrointestinais: náuseas, vómitos, cólicas, diarreia, gases…
  • Comportamentais: Irritabilidade e nervosismo devido ao mal-estar.
  • Causas

Existem vários fatores que podem provocar uma intolerância no nosso cão ou gato; as causas mais comuns são as seguintes:

🔸 Intolerância metabólica

É a deficiência das enzimas necessárias para assimilar o alimento ou nutriente; por exemplo, muitos cães e gatos têm intolerância aos cereais, em especial àqueles com glúten, isto deve-se ao facto de não terem ou terem muito pouca enzima amilase de forma natural, para os digerir e assimilar.

🔸 Intoxicação

Tomar substâncias que produzem toxicidade, como mercúrio, toxinas bacterianas ou tóxicos naturais como a solanina (tomate ou batatas cruas).

🔸 Aversão psicológica a algum alimento

Quando um alimento causa mal-estar a um animal, entra em ação um mecanismo de defesa que faz com que o seu corpo reconheça esse alimento e que, se voltar a ingeri-lo, o rejeite, causando sintomas de intolerância alimentar. É um sistema de defesa para não ser envenenado.

🔸 Reações farmacológicas

Não é de estranhar que um medicamento que lhe faça mal possa dar lugar a uma intolerância.

🔸 Intolerâncias indeterminadas

Estão relacionadas com aditivos e substâncias adicionadas aos alimentos, claro que muito comuns em rações para cães ou alimentos processados.

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Síndrome do intestino permeável

Embora tenhamos falado um pouco sobre esta patologia no artigo sobre alergias em cães e gatos, é aqui que mais se vê envolvida. Esta síndrome é a causa mais comum de alergias e intolerâncias, sendo também conhecida como disbiose. Esta disbiose é um desequilíbrio entre a flora intestinal boa, bactérias benéficas, e as bactérias más que coabitam no intestino dos nossos patudos. Resumindo um pouco, o intestino é um tubo revestido por vilosidades; por meio destes “pelos” absorvem-se os nutrientes que o animal ingere com a comida e entram na corrente sanguínea, para serem distribuídos por todo o organismo.

Na superfície destas vilosidades encontram-se as bactérias boas, como os lactobacilos e bifidobacterium, e também se encontram as más, como os clostridios, etc. Ambos encontram-se em harmonia até que começa a reação de intolerância ou alergia alimentar. Nestes casos, as vilosidades estão danificadas ou até mesmo destruídas por completo e não desempenham bem a sua função de não deixar passar aquelas substâncias que o organismo não deve assimilar.

Além disso, aparecem porosidades, através das quais as bactérias más podem chegar à corrente sanguínea e piorar os sintomas. Quando, através destes orifícios, é um nutriente que passa para o sangue, é possível que o sistema imunitário se coloque na defensiva ao acreditar que é algo nocivo para ele, produzindo uma alergia.

🔸 As causas mais comuns da disbiose

Os sintomas mais comuns da disbiose são os digestivos: diarreia ou obstipação, gases, estômago inchado. Para evitar a disbiose, temos de ter cuidado com os detonadores ou as causas:

  • O uso de antibióticos e corticoides.
  • Sobrevacinação.
  • Stress.
  • Alimentação inadequada (não ajuda a regenerar essa flora intestinal).
  • Toxinas.
  • Infeções bacterianas.

🔸 Patologias associadas ao intestino permeável

  • Doenças autoimunes.
  • Deficiências nutricionais.
  • Doenças do fígado, vesícula e pâncreas.
  • Alguns tipos de cancro.
  • Problemas respiratórios.

 

Testes de diagnóstico

O seu veterinário irá sugerir-lhe várias formas de abordar a intolerância. A primeira opção costuma ser dar uma ração hipoalergénica ao seu cão ou gato, o que, para mim, é um penso rápido que não soluciona o problema real da intolerância; além disso, a qualidade das rações, ainda mais se falarmos das específicas para intolerâncias, é muito má.

Depois, existem as análises ao sangue, mas muitos especialistas concordam que não são testes demasiado fiáveis, que não funcionam corretamente e que podem dar lugar a falsos positivos e negativos, além de se somar o facto de serem bastante caros.

Existem também uns testes de saliva que parecem funcionar melhor do que os serológicos; estes testes analisam bastantes alimentos, mas não servem para alergias, apenas para intolerâncias e sensibilidades alimentares. O preço destes testes é também elevado. No meu caso, o que realizo sempre e o que me dá melhores resultados são as dietas de exclusão ou eliminação.

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Como ajuda a alimentação natural face às intolerâncias alimentares

A dieta de exclusão ou eliminação irá fazer com que o intestino do animal relaxe e deixe de ser sobreestimulado face a substâncias que não deveriam fazê-lo reagir. Graças à administração de uma proteína que o animal nunca tenha comido, as suas defesas não irão reagir e o seu intestino começará a curar-se e a fechar esses “buracos” que causam problemas.

Há que dizer que são necessários pelo menos 2 meses para que o intestino esteja preparado para voltar a enfrentar-se a alimentos que produziam a intolerância, e que não é certo que o animal possa voltar a comer tudo o que comia antes, mas é verdade que, ao ter curado o seu intestino, as reações adversas, quando reintroduzimos os alimentos suspeitos, são muito menores, no caso de as haver. Se a uma boa dieta de exclusão, juntarmos suplementos como prebióticos e probióticos, esse cão ou gato poderá desfrutar de uma dieta natural completa ou quase completa e manter uma saúde de ferro durante muitos anos.

 

Suplementos naturais

Para além de uma dieta natural completa como vimos, existem suplementos naturais que nos podem ajudar a reduzir os sintomas das alergias. Alguns são iguais aos das alergias alimentares, como os ácidos gordos ómega-3; estes irão ajudar-nos a reduzir a inflamação intestinal. Neste caso, o uso de prebióticos e probióticos é um apoio essencial para esse intestino que está em baixo estado de forma.

Dependendo da causa da intolerância, é possível precisar de suplementos específicos; por exemplo, no caso de intoxicação pode ser bom manter durante algum tempo produtos como sumo de aloe vera ou carvão ativado. Temos de ter em conta que cada animal é diferente e a dieta e os suplementos devem ser específicos para ele. É melhor não usar os suplementos durante as primeiras 8 semanas, para que não interfiram na dieta de exclusão; é algo que deve ser avaliado individualmente em cada caso.

 

Casos de sucesso

O caso que mais tempo e esforço me levou, além de ser um dos de que me sinto mais orgulhosa, é o da Eris, a cadelinha da Angelika Bondarczuk. No seu caso, acreditamos que a raiz da sua intolerância foi um caso de intoxicação ou envenenamento.

Esta pequena deu-nos cabo da cabeça durante muitos meses, com diarreias, vómitos… que, por vezes, não estavam relacionados com nada aparentemente. Ainda bem que os seus donos tiveram muita paciência e, graças a eles, à comida da Natuka e a suplementos específicos, hoje em dia ela está ótima, como podem ver nas fotografias do antes e depois. O que demonstra que, com paciência, carinho, boa nutrição e uma equipa de pessoas empenhada, pode-se sempre melhorar.

Eris, cadelinha recuperada com Natuka BARF

 

Verónica Vicent Cruz

Certif. em Dietética e Nutrição Veterinária - Consultora Nutricionista e Gerente da Naturzoo

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